Recordar-te-ei com o coração.

Não é todos os dias que choro a morte de um estranho. Mas também não é todos os dias que perco alguém que me é tão importante como leitora, pois devolveu-me ao mundo da leitura.


Houve um momento da minha vida em que sentia-me um pouco alienada do mundo, dos amigos, da família. Então veio o Natal e uma pessoa que trabalhava ocasionalmente com a nossa Associação ofereceu-nos livros. A mim calhou-me o Cem Anos de Solidão. Como eu não tinha nada para ler, comecei-o imediatamente.


Se me perguntarem do que me recordo de Macondo ou dos Buendia a resposta é "pouco, quase nada" mas lembro-me de me sentir maravilhada. De levar o livro comigo para a mesa da cozinha e esquecer-me que estava a comer. De estar deitada na cama horas seguidas a ler e não querer terminar. Da tristeza de o ter terminado, do sentimento de bênção por o ter lido. De pensar: "Nunca mais vou ler nada assim". E, desde então, todas as lombadas que tenho dobrado têm sido para encontrar o substituto para esse livro, o meu número um. Este blog foi, em parte, consequência dessa leitura.


Devo a Gabriel Garcia Marquéz ter reaprendido a ler: passei de ler porcarias de auto-ajuda para me aventurar a ler mais ficção. Como dizia no Twitter: "Foi como reaprender a amar." Fez-me acreditar que ainda havia coisas boas a serem lidas, que poderia haver outro como o "Cem Anos de Solidão". Que podia ser o Gabo a escrevê-lo.


É por isso que eu agora choro: com a sua morte, morre essa hipótese. Morre a hipótese mas não o génio. Esse prosseguirá na sua obra, tocando tantos outros como eu. Enchendo corações com a melodia da sua prosa e o colorido dos seus personagens.


Gabriel Garcia Marquéz disse:


Recordar es fácil para el que tiene memoria. Olvidar es difícil para quien tiene corazón.


Não serás esquecido, Gabo. Não serás.